REVISTA INGLESA QUER REVELAR OS 20 MELHORES ESCRITORES
BRASILEIROS JOVENS NO EXTERIOR
Uma edição especial com 20 jovens autores brasileiros pode
ajudar a promover a nova geração de escritores brasileiros no exterior - e
lançar luzes sobre a cultura e a vida no Brasil, considera John Freeman, editor
da revista literária britânica Granta.
Em entrevista à BBC Brasil, Freeman considera
"triste" se falar apenas de crescimento econômico e eventos
esportivos no Brasil no exterior sem que haja uma percepção maior sobre a
literatura do país.
Cultura
Durante a Festa Literária de Paraty (Flip), a Granta lançou
uma edição especial dedicada apenas a autores brasileiros, com contos e trechos
de romances inéditos selecionados em um concurso que contou com 247 trabalhos
inscritos, todos por autores de menos de 40 anos.
Prestigiosa revista literária inglesa, a Granta publicou em
1983 sua primeira lista dos melhores jovens escritores britânicos, inaugurando
uma tradição que se repete a cada dez anos e é cercada de expectativas por
antecipar nomes importantes na cena literária de língua inglesa.
Agora, é a primeira vez que o modelo chega ao Brasil.
"Os melhores jovens escritores brasileiros" foi publicada em
português, mas será lançada em inglês, chinês e espanhol, fazendo os autores
selecionados circularem entre um público amplo.
Os escritores que tiveram seus trabalhos publicados são
Cristhiano Aguiar; Javier Arancibia Contreras; Vanessa Barbara; Carol Bensimon;
Miguel Del Castillo; João Paulo Cuenca; Laura Erber; Emilio Fraia; Julián Fuks;
Daniel Galera; Luisa Geisler; Vinicius Jatobá; Michel Laub; Ricardo Lísias;
Chico Mattoso; Antonio Prata; Carola Saavedra; Tatiana Salem Levy; Leandro
Sarmatz; e Antônio Xerxenesky.
Abaixo os principais trechos da entrevista.
BBC Brasil - É a primeira vez que uma lista dessas é feita
para o Brasil. O que isso representa para a literatura brasileira?
John Freeman - A lista tem muitos significados, mas o
principal é apresentar uma geração de escritores. Aqui está uma geração que,
esperamos, todos no Brasil e agora no mundo vão ler nos próximos anos. É uma
chance de debater essa lista, analisar esse trabalho.
O interessante em formular listas de jovens autores é que
eles olham para o mundo de uma maneira diferente de escritores mais velhos.
Eles estão se definindo, encontrando a sua voz, muitos deles escrevem seus
trabalhos mais ambiciosos antes dos 40. É uma chance de ver o que isso revela
sobre o Brasil.
BBC Brasil - E o que você acha que o conjunto de autores
selecionados revela sobre o Brasil?
John Freeman - Essa é uma geração que cresceu em grande
parte fora da ditadura militar, em tempos de oportunidades crescentes e de
desenvolvimento econômico, de movimento para a cidade e tendência ao
cosmopolitanismo. Esses são autores que viveram ao redor do mundo e que estão
absorvendo influências não apenas da América Latina ou do Brasil, mas de
escritores do mundo todo.
Eu encontrei um enorme frescor na escrita, uma inquietude
com a forma, um foco na família como um ponto central que orienta a vida, algo
que em algum grau pode ser semelhante a autores do passado.
BBC Brasil - Durante a coletiva de imprensa, você mencionou
que vários autores que estão aqui na Flip neste ano fizeram parte de listas de
jovens autores da Granta no passado, como Ian McEwan, Jonathan Franzen e
Alejandro Zambra. O que isso pode trazer para os autores?
John Freeman - Isso significa que as pessoas estão de olho
neles agora, que vão observar o que acontece no futuro. Isso tem um significado
enorme para vendas no exterior e possibilidade de ser traduzido. Vejo isso pela
lista de jovens autores que fizemos na nossa edição espanhola. Muitos deles
foram traduzidos para outras línguas depois, não apenas inglês.
Conheça a Granta
A Granta foi fundada em 1889 por estudantes da prestigiada
Universidade de Cambridge. Nos anos 1970, a revista enfrentou probelmas
financeiros e foi resgatada por um grupo de jovens estudantes de pós-graduação,
que a tornaram uma publicação focada em novos autores.
Desde 1979, alguns dos
mais importantes autores emergentes tiveram textos publicados na revista, entre
os quais Milan Kundera, Doris Lessing, Ian McEwan, Gabriel Garcia Marquez,
Jayne Anne Phillips e Salman Rushdie. A revista é publicada, em geral, a cada
trimestre, mas não tem periodicidade fixa.
A outra vantagem é que a lista os coloca em diálogo com
outros jovens autores, e isso vira uma espécie de confraria.
BBC Brasil - Como você acha que a literatura brasileira é
percebida no exterior hoje?
John Freeman - Na verdade ela não tem uma percepção. Muitas
pessoas se apaixonaram pelo Jorge
Amado, leem Machado de Assis, a Clarice
Lispector está sendo retraduzida no momento... Mas não há uma percepção da
literatura brasileira como há da argentina, ou colombiana, ou peruana.
Acho que em grande parte isso acontece porque nenhum
brasileiro ganhou o prêmio Nobel. Quando alguém ganha o Nobel, ele se torna um
portal gigante para a sua cultura, e às vezes outros autores podem viajar na
sua cola.
BBC Brasil - Hoje o Brasil recebe muita atenção do exterior,
mas esse discurso é puxado pelo crescimento econômico e dos megaeventos que o
país vai sediar?
"Imagina se tivéssemos produtos americanos, mas nenhuma
ficção americana. Seria muito desmoralizante, teríamos que pensar nos Estados
Unidos com base em seus carros"
John Freeman, editor
John Freeman - É, futebol. Eu acho triste quando isso
acontece porque despe o país de seu imaginário, das histórias que ele conta
sobre si, sobre as pessoas que vivem nele. Imagina se tivéssemos produtos
americanos, mas nenhuma ficção americana. Seria muito desmoralizante, teríamos
que pensar nos Estados Unidos com base em seus carros, sei lá.
O mesmo vale para a China. O país está crescendo muito
rápido, está em uma posição semelhante ao Brasil, mas se não há escritores ou
músicos ou cineastas contando a história do país como ele é, você começa a
tratar os países como motores do capitalismo. E o capitalismo é algo
maravilhoso, mas também algo destrutivo.
BBC Brasil - Então neste contexto onde o crescimento
econômico é tão valorizado, a ficção e a literatura podem ser uma chave para
vislumbrar as vidas das pessoas?
John Freeman - Sim, eu acho que é a maneira mais poderosa de
imaginar como é ser outra pessoa. Podemos vestir roupas fabricadas no Brasil,
ou podemos tentar seguir os seus passos de dança - o que, vindo de um
americano, é uma má ideia. Mas a maneira como podemos realmente tentar entender
como é viver aqui é lendo seus escritores.
O jornalismo só pode nos levar até determinado ponto, porque é sobre outra pessoa, é distanciado. Jornalistas têm muitas ferramentas, mas não têm as ferramentas que escritores de ficção têm, que é de inventar e torcer o tecido da realidade e transformá-la em algo novo, o que às vezes pode contar a verdade de uma maneira mais fiel do que as coisas factuais. JULIA DIAS CARNEIRO - BBC DO BRASIL







Nenhum comentário:
Postar um comentário