ZEUS, PAPAI!
Ele veio e entrou na
nossa vida de repente. Minha filha anunciou que ganhara um filhote “cokspen
cruzado com maltês”, e no outro dia chegou com ele entre as palmas da mão.
Branco, de uma pureza imaculada queria
carinho e alimentação.
E não lhe faltou isso lá em casa. Vivíamos na época, uma crise
de isolamento: os meninos cresceram e deixaram de depender, diretamente de nós.
A vida virara uma rotina sem fim: afazeres domésticos para minha mulher,
tratamentos espirituais ministrados por mim aos meus fieis filhos de fé.
Vivíamos uma espécie de mutismo. Todos juntos, unidos, ,mas
separados pelos afazeres. A casa perdera a sua graça, o seu axé mágico e o cãozinho
que Alice “batizou” com o nome deus do Olympus se tornou uma novidade, um traço
de união, de alegria entre nós.
Minha mulher, ainda carente depois dos vários abortos que teve,
cuidada de Zeus como se ele fosse uma criança. Comidinha na hora certa,
mamadeira, banhos, penteados, vacinas, cuidados que todos petizes requerem.
Levava ele ao veterinário do posto, no braço, como uma criança.
E Zeus, um olho
castanho, e olho azul ( ele era assim,
bipolar na visão), “representava” o papel da criança , no colo da mãe. A dele, que o gerou,
pouco viu, pois foi desmamado com alguns
dias de nascido.
Zeus era assim o membro menor da família. Fotos e mais fotos
acompanharam o seu rápido desenvolvimento. E ele, alvo , puro como um floco de algodão, retribuía com carinho nossa atenção exagerada,
ao cãozinho que eu chamava de “Zeus Papai!
Fiz ate uma modinha para ele: “Zeus , papai, o Dragão é lá
da China!”, parodiando uma canção antiga, de uns 30 anos atrás, de autoria do
poeta Paschoal Guida, para o Carnaval de 1981, em Cachoeiras de Macacu, onde morei
e fundei meu jornal, - o Jornal do Município.
Zeus retribuía com rosnados, mordidinhas, aos saltos, pulos,
corridas sem rumo certo, a ponto de bater ou esbarrar nos sofás o u nas
paredes. Quando Gabriel voltava à noite da TV O POVO, Zeus o esperava na porta e só sossegava quando lhe arrancava as meias dos pés.Depois
ficava rosnando e mordendo as meias .
Zeus cresceu rápido. Comia muito e dava saltos de mais de um
metro, para tentar arrancar um osso da minha mão. Gostava de ir para a rua dar
sua “ mijadinha” , aqui, ali. E quando eu gritava:
- Zeus olha o carro, ele com,medo ia para o meio fio, e
entrava em casa.
Depois voltava desconfiado e vinha deitar-se sob meu banquinho,
ou a meus pés. A uma semana Zeus começou
a entristecer. Até pensamos que fora por causa da ida de um parente para sua
casa.
-Zeus está com saudade do Toinho, dizíamos.
Há uns seis meses atrás Zeus sofreu um maciço ataque de
carrapatos. Gastei bastante com banhos
preventivos, com aplicação de vacinas contra o inseto vampiro.
Mas, agora, acho que descobrimos tarde, que ele estava,
novamente , infestado de carrapatos, ele e a outra cadelinha – a Fadinha -, que
por determinação do destino cruzou com Zeus mas não teve os filhotinhos.
Minha mulher, na esperança de conter a infestação de
carrapatos deu nos dois, um banho com um veneno específico para a praga. Zeus
amanheceu mais triste. Não corria mais. Não queria vir para rua comigo.
Permanecia deitado, triste.
Sexta à noite pressenti que ele estava deixando esse mundo cão em que
vivemos.Sai e ele veio deitar-se aos meus pés, mas seus
reflexos estavam sumindo.
Pedi que minha mulher colocasse um pouco de leite para ele,
que cheirou o alimento e nem chegou a lambê-lo. Ela tentou leva-lo para a parte
de trás da casa e ele não quis ir.
Aí eu disse aquela frase
mágica, que o fazia pular de alegria e que me fez dar boas gargalhadas, eu que
desaprendera a sorrir e a cantar musicas profanas. As lágrimas, então, inundaram meus olhos, confesso. E
não nego que chorei!
-Zeus é Papai , (é do Papai) ?
E ele respondeu batendo fortemente com o rabinho no chão!
Minha mulher colou-lhe a coleira e o levou.
“Hoje ele já deve ter
virado estrela na Constelação do Cão Maior, ou voltado em essência, ao coração
de Zeus, lá no Olympus”, onde por certo seu mitológico pai deve estar!
ÓRION LIMA
ÓRION LIMA






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