ONU ADVERTE:
AQUECIMENTO GLOBAL É A PRINCIPAL CAUSA DE EVENTOS CLIMÁTICOS EXTREMOS
NOVA YORK - Um relatório da ONU publicado sexta-feira,(18), afirma que as mudanças
climáticas provocadas pelo homem já causam ondas de calor e chuvas torrenciais
que são responsáveis pelas inundações, e provavelmente contribuirão para futuros
desastres naturais, alerta a ONU.
Mas as perdas e danos provocados por estes eventos extremos
dependerão muito das medidas tomadas para proteger as populações e a
propriedade quando a violência da natureza aflorar, acrescentou.
O relatório, divulgado dez dias antes das negociações
climáticas em Durban, na África do Sul, é a primeira revisão abrangente das
Nações Unidas sobre o impacto do aquecimento global em eventos climáticos
extremos e a melhor forma de lidar com eles.
"Na verdade, podemos atribuir o aumento de dias quentes
nos últimos anos a uma concentração maior de gases de efeito estufa",
afirmou Thomas Stocker, co-presidente do Painel Intergovernamental de Mudanças
Climáticas (IPCC), que aprovou um resumo do relatório durante reunião em
Kampala, capital de Uganda.
"E é virtualmente certo que a intensificação da
frequência e da magnitude dos extremos diários de calor e frio ocorram no
século XXI", disse a jornalistas durante entrevista coletiva.
"Temporais serão mais frequentes em muitas regiões do
planeta", acrescentou.
O relatório revisou extremos de calor e chuva com base em
três projeções ou cenários: uma forte redução nas emissões de carbono, uma
redução modesta, e níveis inalterados (cenário "business as usual").
Os três cenários demonstraram uma trajetória similar de
aumento dos extremos até meados do século.
Mas por volta do fim do século, os caminhos divergem
dramaticamente, com ondas de calor e picos de chuva mais intensos e frequentes
no pior cenário, que considera um mundo saturado de gases-estufa.
No cenário que prevê emissões elevadas - a caminho do qual
estamos agora -, picos de calor que aconteciam a cada 20 anos vão ocorrer a
cada cinco anos por volta de 2050, e todo ano ou a cada dois anos ao final do
século. A incidência de chuvas intensas aumentará da mesma forma, acrescentou o
documento.
Qin Dahe, outro co-presidente do IPCC, afirmou que o painel
também está "mais confiante" de que as mudanças climáticas são a
causa do recuo das geleiras, uma grande preocupação para países da Ásia e da
América do Sul, que dependem das geleiras para ter água.
Há alguns anos, a imagem do painel saiu arranhada após
equívocos no Quarto Relatório de Avaliação, publicado em 2007. Entre estes
erros estava uma estimativa grosseiramente imprecisa sobre o ritmo de
derretimento das geleiras do Himalaia.
Voltando ao documento atual, no que diz respeito aos outros
eventos climáticos, como ciclones, os cientistas ainda se disseram incapazes de
dimensionar o impacto das mudanças climáticas, devido à falta de dados e a
"mutabilidade e variações inerentes ao sistema climático", explicou
Stocker.
"A incerteza aqui vai nas duas direções. Os eventos
podem ser mais severos e mais frequentes do que as projeções sugerem ou
vice-versa", acrescentou.
Alguns estudos sugeriram que a temperatura do ar e da
superfície marítima mais quentes, combinadas com uma maior umidade do ar
intensificarão as tempestades tropicais.
O documento de 20 páginas publicado sexta-feira(18) resume as conclusões de um
relatório de 800 páginas, que levou três anos para ser feito, e que revisa
milhares de artigos científicos de países-membros, e que reúne representantes
de governos e especialistas.
Segundo o documento, extremos climáticos atingirão o globo
de forma desigual: a onda de calor que matou 70 mil pessoas na Europa em 2003
pode ser um padrão para futuros picos no sul da Europa e no norte da África.
Regiões da África onde milhões já vivem no limite da fome enfrentarão mais
secas. Pequenos estados insulares poderão ficar inabitáveis devido a temporais
agravados pelos mares com níveis mais elevados.
"A mensagem chave é a forma de interação dos extremos,
a exposição e a vulnerabilidade criam um risco de catástrofe", explicou
Chris Field, co-presidente do Grupo de Trabalho II do IPCC, que se concentra na
adaptação às mudanças climáticas.
"Não é preciso dizer que este relatório é um novo
alerta", afirmou a comissária europeia de ação climática, Connie
Hedegaard, em um comunicado em Bruxelas.
"Com todo o conhecimento e argumentos racionais a favor
de uma ação climática urgente, é frustrante ver alguns governos não
demonstrarem a vontade política para agir", acrescentou.
"Este relatório deveria acabar com as dúvidas dos
governos sobre o que são as mudanças climáticas, sobre seus impactos sobre os
eventos climáticos extremos, que já afetam as vidas e o sustento de milhões de
pessoas", criticou Bob Ward, do Instituto de Pesquisas Grantham sobre
Mudanças Climáticas e Meio Ambiente da London School of Economics.

















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